Um mês após a tragédia no Ninho, polícia pede mais 30 dias para concluir inquérito

Oito de fevereiro de 2019 ficará marcado como o dia mais triste da história do Flamengo. Um mês depois, a tragédia no Ninho do Urubu segue viva na memória de todos, deixou marcas, causou danos e ainda gera perguntas. O que, de fato, provocou o incêndio que matou dez jovens das categorias de base? O que aconteceu naquela madrugada? Até onde vai a culpa / responsabilidade do clube? Haverá acordo com as famílias das vítimas ou o caso vai se arrastar por anos na Justiça?

Em um mês, muita coisa foi dita, alguns pontos esclarecidos, mas ainda há questões abertas. As investigações da Polícia Civil seguem, assim como as negociações com as famílias das vítimas por indenizações.

Investigação: polícia pede mais 30 dias para concluir inquérito

A perícia no Ninho do Urubu foi concluída no dia do incêndio. Foi aberto inquérito na 42ª DP (Recreio dos Bandeirantes) para apurar a responsabilidade e, desde então, a investigação está em andamento.

A previsão inicial era que em 30 dias ela fosse concluída. A polícia, no entanto, solicitou mais 30 dias ao Ministério Público para um desfecho no inquérito. Até o momento, 40 pessoas, entre sobreviventes, feridos, funcionários e dirigentes do Flamengo prestaram depoimentos. O clube contratou o advogado criminalista Ricardo Petri para acompanhar o caso.

Em contato com o GloboEsporte.com, o delegado responsável pelo caso, Márcio Petra, confirmou que pediu mais 30 dias para a conclusão do caso, mas ressaltou que ainda não pode revelar detalhes da linha de investigação.

Desde 8 de fevereiro, o Flamengo conseguiu esclarecer algumas questões levantadas logo após a tragédia. O clube provou, por exemplo, que cada aparelho de ar-condicionado tinha seu disjuntor. Ao lado da NHJ, empresa responsável pela construção do módulo habitável, mostrou também que o metal levava material antichamas, ao contrário do que aconteceu na boate Kiss, por exemplo.

Internamente, o Flamengo sustenta a tese de que o incêndio provavelmente foi causado por um curto-circuito gerado por picos de energia na região, consequência do temporal que atingiu o Rio de Janeiro na véspera da tragédia. Outra possibilidade seria um erro humano durante a manutenção dos seis aparelhos de ar-condicionado do contêiner, que ocorreu quatro dias antes.

Indenizações: Fla avança em tratativas separadas

Passado o período de reconhecimento de corpos, velórios e enterros, as negociações com as famílias tomaram as manchetes nas últimas semanas. Três dias após o incêndio, o Flamengo se antecipou, reuniu-se com a Defensoria Pública, assumiu a responsabilidade por abrigar menores de idade e sinalizou com o pagamento de indenizações.

Na prática, no entanto, as coisas não começaram bem. Após encontros com a Defensoria e com as famílias, dirigentes do Flamengo foram duramente criticados pelas ofertas iniciais.

O valor mínimo estipulado pelo Ministério Público foi de R$ 2 milhões, além de R$ 10 mil até que período em que as vítimas completassem 45 anos, se estivessem vivas. Após uma oferta inicial de R$ 150 mil por genitor, além de um valor menor por avós e irmãos, o Flamengo acenou com R$ 700 mil para cada família, além de três salários mínimos por 10 anos, o que não foi bem aceito, e a mediação conjunta, naquele momento, foi encerrada.

Sem acordo coletivo, o Flamengo partiu para tratativas individuais, o que já era a ideia inicial do clube: individualizar as negociações para atender as necessidades específicas de cada família. Até o momento, houve um acordo. Pelo menos outras cinco tratativas estão em andamento. Os representantes de Vítor Isaías e Bernardo Pisetta, por exemplo, se reúnem com o clube no início da próxima semana. O Flamengo procurou as famílias dos 26 jovens que estavam no módulo na noite do incêndio.

A missa de sétimo dia teve discurso do presidente Rodolfo Landim. Nenhum familiar, no entanto, esteve presente. A missa de 30 dias ocorrerá neste sábado.

Dois dos três feridos são esperados na segunda-feira

Os três sobreviventes que saíram feridos da tragédia estão fora de risco. Francisco Dyogo e Cauan Emanuel receberam alta uma semana após o incêndio. Cearenses, os dois passam férias em Fortaleza e retornam às atividades na próxima segunda junto com os demais atletas.

O caso mais grave foi do zagueiro Jhonata Ventura. Ele teve 30% do corpo queimado, ficou em coma induzido, mas já deixou a CTQ do Pedro II e foi transferido para um hospital particular. Seu estado é estável, mas ainda não há previsão de alta.

Com quase todos os sobreviventes, categorias voltam na segunda

Após mais de um mês com as atividades suspensas, os elencos sub-15 e sub-17 – categorias afetadas diretamente pelo incêndio – retomam as atividades nesta segunda-feira. Os 13 sobreviventes que não sofreram danos também voltam, assim como Francisco Dyogo e Cauan. Os dois voltam ao Rio de Janeiro neste fim de semana com os familiares.

Como o Ninho do Urubu está interditado, a reapresentação será na Gávea, mas sem treino na segunda. Os jovens vão conversar com diretoria e comissão técnica antes de retomarem os trabalhos. Os dois primeiros jogos no Carioca da categoria foram adiados, e a estreia está programada para o dia 30 de março.

O local dos treinos ainda não foi definido. Enquanto não puder usar as instalações do Ninho do Urubu, o Cefan é a principal opção. A Gávea está sendo usada pelo elenco profissional neste período.

Ainda não há uma definição quanto aos atletas de fora do Rio de Janeiro, que moram em alojamentos. Os contêineres do Ninho do Urubu foram retirados, e os garotos ficarão instalados no antigo módulo profissional quando o CT for liberado. Até lá, devem ficar em hotéis.

Os garotos receberão todo suporte psicológico no retorno. Funcionários envolvidos com as categorias de base receberam suporte no último mês. Houve palestras. Uma delas com o tema “Do luto à luta”.

O time sub-20 retomou as atividades em 21 de fevereiro e realizou pré-temporada em Domingos Martins, região serrana do Espírito Santo. O Flamengo estreia no Campeonato Carioca da categoria na próxima quinta-feira.

Clube corre para liberar o Ninho do Urubu

Exibido com orgulho pelo Flamengo antes do incêndio, o Ninho do Urubu foi interditado na semana passada pela Prefeitura do Rio de Janeiro pelo fato de o estabelecimento não ter alvará de licença. A decisão de 2017 foi cumprida em 27 de fevereiro deste ano.

A interdição não teve relação com o pedido feito pelo Ministério Público, por conta das indenizações. O órgão solicitou o fechamento do CT e o bloqueio de R$ 57 milhões do clube. O Flamengo apresentou defesa e ainda aguarda decisão do juiz.

Sem seu CT, o futebol do Flamengo voltou para a Gávea. Enquanto isso, a diretoria acredita ter cumprido as exigências de Corpo de Bombeiros para conseguir um certificado de aprovação da corporação. Agora, aguarda uma nova vistoria, que não foi agendada, para tentar retomar os trabalhos no Ninho.

Globo Esporte

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