Impasse com Ninho afeta 30% da base do Flamengo às vésperas da Taça GB; famílias cobram MP

Duas semanas de treinamentos, estreias oficiais marcadas, e o Flamengo ainda vive dias de indefinição sobre o futuro nas categorias de base.

Com o Ninho do Urubu ainda interditado para jovens abaixo de 18 anos, familiares de 35 atletas com origem fora do Rio de Janeiro se veem no limite para uma definição de alojamento e cogitam levar os garotos de volta para casa.

A interdição parcial determinada pela Justiça, através da 1ª Vara da Infância, da Juventude e do Idoso, é válida até que o Flamengo comprove o cumprimento das exigências impostas pelo Corpo de Bombeiros, Defesa Civil e Prefeitura do Rio para o funcionamento do local. A pena aplicada, em caso de descumprimento, será multa única de R$ 10 milhões para o clube e R$ 1 milhão para o presidente rubro-negro, Rodolfo Landim.

A situação impacta em 30% das categorias Sub-14, 15, 16 e 17 do Rubro-Negro. O grupo está hospedado em hotel no Recreio dos Bandeirantes desde o dia 11 de março, quando os times desta faixa etária voltaram de folgas forçadas pelo incêndio de 8 de fevereiro. O Flamengo é responsável pelas despesas, mas o prazo de permanência se aproxima do fim.

Números das categorias de base do Flamengo
110 – jovens entre 14 e 17 anos
35 – famílias hospedadas em hotel com jovens de fora do Rio
5 – jogadores moram em comunidades precárias no Rio e também se alojam no CT
30% – das categorias Sub-14, 15, 16 e 17 será afetado caso as famílias deixem o Rio

Inicialmente, a previsão era de que os jovens ficassem acompanhados de um responsável legal por uma semana. Desde a última segunda (quando expirou o prazo), com a homologação do TAC dos Bombeiros e o pedido de Alvará e Habite-se na Prefeitura, o caso tem sido avaliado quase que diariamente.

A ausência de respostas ou medidas efetivas dos órgãos públicos, por sua vez, tem causado apreensão. A espera pela liberação do Ninho já ultrapassa a expectativa dos envolvidos após aval do Corpo de Bombeiros. Em consenso, as 35 famílias se manifestaram de maneira favorável às instalações do CT e pediram que o Ministério Público do Rio de Janeiro ao menos estipule prazos.

Mães, pais e avós acompanham os atletas no Rio de Janeiro e queixam-se também a mudança na rotina dos jovens. Sem o Ninho do Urubu, os treinamentos têm acontecido no CT do Audax, em São João de Meriti, a 43km do hotel. Todas as atividades são realizadas pela manhã, e os jogadores acordam às 5h e retornam por volta das 13h.

O ano letivo também está sendo impactado. Sem as instalações do Ninho do Urubu, a entidade de ensino com quem o Flamengo tem parceria não tem disponibilidade de receber todos os garotos em uma única unidade, dificultando a logística de deslocamento. Também por conta da indefinição, os pais optaram por aguardar para evitar burocracia de transferência de matrícula caso voltem para suas cidades.

Diante do impasse, o Ministério Público do Rio de Janeiro esclarece que não há exigência para que os pais permaneçam na cidade, apenas que o Flamengo assegure atendimento adequado aos atletas enquanto adota as providências adequadas requeridas por decisão judicial. Abaixo, confira a íntegra da nota do órgão, que ainda não respondeu ao GloboEsporte.com quanto ao questionamento dos pais a respeito de prazos e vistorias.

Por outro lado, o Flamengo se posiciona no sentido de que toda estrutura necessária para receber os atletas alojados está disponível no Ninho do Urubu e aguarda a liberação do local após o aval do Corpo de Bombeiros. Confira também abaixo a declaração do vice-presidente de futebol de base, Vítor Zanelli, que cita ainda o suporte provisório oferecido em hotel.

Os pais também se posicionaram e se mostraram favoráveis às instalações do Ninho do Urubu (confira abaixo).

Enquanto o martelo não é batido, a Ferj confirmou as primeiras rodadas das Taça GB Sub-15 e Sub-17 para o dia 30. Nas duas categorias, o Flamengo recebe o Bangu, pela manhã, na Gávea. Resta saber se com todo o elenco à disposição ou apenas 70% dele.

Confira o posicionamento das famílias:

Francisco José, pai do goleiro Dyogo Alves – Fortaleza (CE)

  • Todos nós estamos apreensivos por conta das pendências relacionadas ao Ministério Público, que impedem que possamos alojar nossos filhos no Ninho do Urubu. É um local que já visitei, é muito bonito, muito amplo e que não apresenta risco algum para nossos garotos.

Rejane Martins, mãe do atacante Felipe Chrysman – Araçaí (MG)

  • Se o meu filho, que estava lá, vivenciou tudo e quis voltar, foi uma pergunta que eu fiz para ele… O Flamengo custeou as consultas psicológicas e na primeira delas a psicóloga me pediu que não dissesse não ao sonho do meu filho. A preocupação dele era essa. Se ele que passou pelo que passou quis voltar e quer ficar, não sei porque não é liberado.

Carla, mãe do volante Naydjel Callebe – Marechal Cândido Rondon (PR)

  • Meu filho estava no incêndio, graças a Deus conseguiu sair. Um amiguinho o acordou e desde que voltou para casa espera ansiosamente para voltar ao Flamengo. Ele gosta muito de estar aqui. Mas eu, como todos os outros pais, trabalho, e o nosso prazo está se esgotando. Vai esgotar, vou ter que pegar meu filho, voltar para Marechal… Ele pode ir para outro time? Pode. Mas gostaria de estar aqui e lutar pelos meninos que se foram. Eles querem vencer e ser lembrado como meninos do Ninho.

Vera, avó do atacante Cauan – Fortaleza (CE)

  • Já fizemos de tudo. Fomos ao Ministério, no Juizado, tentamos de todas as maneiras deixar esses meninos aqui. Estamos no nosso limite. Não podemos voltar para nossas cidades sem uma solução. Eles vieram de livre e espontânea vontade, é o sonho deles, eles querem voltar e levá-los de volta é acabar com o sonho deles. Não sabemos mais o que fazer.

Elismara, mãe do atacante Jean Carlos – São José do Rio Preto (SP)

  • Está muito difícil ficar. Sou gestante e diabética, além do meu trabalho. Meus patrões me ligam. Peço que o Ministério Público avalie essa situação para gente. Queria ver se podiam agilizar para sabermos o que fazer.

Confira os posicionamentos do Flamengo e do MP-RJ sobre o caso:
Vitor Zanelli, vice-presidente de futebol de base do Flamengo:

  • O Flamengo está dando suporte às famílias com hospedagem e toda as despesas necessárias em hotel no Rio de Janeiro, mas é uma situação provisória e que estamos avaliando diariamente. Não podemos abrir mão da presença de um adulto acompanhando o jovem. Se não é uma exigência da Justiça, é algo que entendemos como necessário. Como um menor vai se hospedar em um hotel sozinho? Já disponibilizamos toda estrutura no Ninho do Urubu e trabalhamos para que esses 35 garotos possam ocupar o novo módulo destinado para base em breve.

Nota de esclarecimento do MP-RJ

O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) esclarece que não há decisão judicial nem recomendação de qualquer Promotoria de Justiça para que os jovens atletas do Flamengo permaneçam no Rio de Janeiro com a presença dos pais. O que há de concreto é decisão proferida pela 1ª Vara da Infância, da Juventude e do Idoso da Comarca da Capital, em ação civil pública ajuizada pelo MPRJ, que determinou a proibição de entrada, permanência e ou participação de qualquer criança ou adolescente nas dependências do CT até que o clube observe todas as peculiaridades inerentes às crianças e adolescentes, desde o acompanhamento pedagógico, social, psicológico e médico, passando pelas instalações do alojamento.

Cabe ao clube, portanto, assegurar atendimento adequado de seus atletas, enquanto adota as providências necessárias requeridas pela decisão judicial. O MPRJ informa que está à disposição das famílias dos atletas para esclarecer dúvidas e dar as orientações necessárias.

Globo Esporte

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