É verdade que o confronto dessa quarta-feira não era válido por competição internacional, que é o grande drama do Flamengo nos últimos muitos anos. Mas, no fim das contas, é como se fosse. Afinal, as camisas tricolores espalhadas no lado oposto do campo há poucos meses haviam conquistado a América. Era um confronto copeiro por excelência, portanto, e para o Flamengo significava também a oportunidade de acender a luz para espantar os demônios que insistem em lhe assoprar a orelha.
Diante de um Maracanã lotado, o que em tempos recentes seria o equivalente a um velório de dantescas proporções, com cada camisa rubro-negra transformada em lenço ou mortalha, a equipe de Maurício Barbieri mostrou com quantos fígados se joga uma partida deste quilate. Porque o coração é cantado em prosa e verso, mas quem segura a miséria da existência é o fígado, este abnegado zagueiro do corpo humano. Pois o Flamengo deitou no divã em uma noite de copa, deitou de peito aberto, e finalmente esboçou um sorriso quando finalmente saiu porta afora, um futuro pela frente, perto da meia-noite, deixando para trás um punhado de traumas.
O gol de Everton Ribeiro logo no início transformou radicalmente o panorama da partida. O Grêmio teve a bola a seu dispor, ainda que fosse tão contundente quanto um rolo de papel higiênico molhado, enquanto o Flamengo encaixotou-se em sua intimidade, esperando um contragolpe que era quase uma miragem. Talvez tenha sido uma opção, antevendo certo desgaste físico em decorrência das muitas competições, opção quem sabe também somada a certa incapacidade momentânea diante de um adversário necessitado. Prefiro acreditar, no entanto, que havia certo instinto primitivo latejando sob a camisa rubro-negra: o Flamengo precisava ser colocado à prova. O Flamengo precisava sofrer — e sobreviver depois de sofrer.
Na partida contra o Cruzeiro, pela Libertadores, há poucos dias, o Flamengo matinha a bola com uma inocência quase irritante, sendo alvejado sem piedade pelos espaços que oferecia. Diante do Grêmio, ao colocar-se de joelhos no imenso confessionário do Maracanã, tendo como interlocutor apenas Deus e o vulto de Cabañas, a esquadra flamenguista redimia cada um de seus tombos recentes a cada vez que interrompia as frequentes investidas do Grêmio, que especialmente nos primeiros quinze minutos do segundo tempo desabou sobre a área rubro-negra com o peso da culpa cristã.
Com Diego em noite iluminada, condutor de rebanhos e nações, e a providencial entrada de Marlos Moreno, que encarnou uma redentora válvula de escape, a situação tornou-se cada vez mais amena, até que o tempo se esgotou e o Flamengo, diante de 50 mil pessoas, em um jogo decisivo e copeiro por excelência, percebeu que estava não apenas vivo, mas também faceiro e redimido como um adolescente numa noite de sábado. E, depois disso, bem sabemos, a vida tende a ser mais leve: quem desbrava sem remorso as ruas e as copas nunca é o mesmo na manhã seguinte.
Douglas Ceconello // Globo Esporte
