Carlos Noval vive o Flamengo há anos, mas é um cara discreto, tranquilo e avesso aos holofotes. Assumir o comando do futebol não estava nos planos. Mas o chamado do presidente Eduardo Bandeira, com o clube no olho do furacão, foi tratado como uma convocação. Na verdade, uma “missão”, com descreve o diretor.
Logo nos primeiros dias de abril, Noval topou trocar a estabilidade da base – onde em quase oito anos ajudou a conquistar três Copas São Paulo e revelar jogadores como Vinicius e Paquetá – pela pressão dos profissionais. O cenário era assustador.
– Fui pego de surpresa. Estava na Itália, em uma competição com o sub-15. O presidente pediu para eu voltar, porque tinham saído seis membros do futebol. Momento delicado do clube, no meio de uma Libertadores, começando o Brasileiro, eleição no fim de ano, sem treinador… Complicado. Mas quem está dentro do Flamengo tem que estar preparado para essas situações – diz o dirigente.
Entre as atribuições de Noval, a principal é controlar o entra e sai de jogadores. Com o mercado aquecido e o Flamengo em evidência, segurar os protagonistas e repor as perdas talvez seja a maior dificuldade. Após perder Vinicius para o Real Madrid, manter Paquetá é prioridade. O dirigente prepara um plano de carreira para o camisa 11, revela que as conversas já começaram, mas admite a dificuldade diante do assédio e do dinheiro europeu.
– Sempre tem (assédio). O Paquetá tem se destacado muito, é um dos melhores jogadores do Brasil. Não chegou nada oficial. Sempre há especulação. A partir do momento que chegar algo, vamos conversar com o empresário e com o atleta.
– Nossa ideia sempre é segurar. Mas se pagarem a multa não tem jeito. Mas a ideia é fazer um plano de carreira e fazer com que o Paquetá vire um ídolo aqui. A princípio, só sai pela multa.
CONFIRA A ENTREVISTA
São mais de dois meses à frente do futebol do Flamengo. Você entrou no olho do furacão. Como foi esse início?
Estou muito tranquilo. Isso aqui é meu berço. Aqui dentro pouquíssimas pessoas conhecem o Flamengo como eu conheço. A relação com os funcionários e jogadores é muito tranquila.
Era uma coisa que imaginava para a sua carreira ou preferia ficar na base?
A base me dá muito prazer. É onde você planeja, consegue formar o atleta… Foi uma missão. Não planejava isso. Foi uma missão que me deram e vou tentar fazer o possível. Meu pai foi diretor de futebol do Flamengo entre 1976 e 1982, na época do Paulo Dantas. Ele faleceu em 2015. Com certeza foi meu grande mentor no futebol. Ele e o (Cláudio) Coutinho, com quem tive o prazer de conviver. Morei com ele um ano nos EUA. Foi um grande aprendizado.
É diferente de que maneira o seu trabalho hoje em relação ao da base?
O que é bem diferente da base é essa pressão da torcida para ganhar de qualquer jeito. Na base a gente forma jogadores. Aqui é mais resultado. O resto estamos levando bem. Eu sou muito discreto, sempre fui. O pessoal da arquibancada pede para tirar foto, nos hotéis também, alguns já chamam pelo nome. Isso faz parte. Com o tempo você vai ficando mais conhecido. Não tem jeito.
Uma das suas atribuições agora é contratar, ir ao mercado de atletas. É muito diferente da base?
A diferença são os valores. Os empresários praticamente são os mesmos. Os valores é que são bem diferentes. Na base os valores são muito menores, e é claro que as negociações ficam mais fáceis. Mas não vejo muita dificuldade nessa questão.
Já está trabalhando nesse sentido?
Estamos conversando. Têm algumas especulações, estamos indo.
O Flamengo vendeu recentemente Jorge, Vinicius e Vizeu. A cada ano, economicamente, o clube se fortalece um pouco mais. Acredita que essa curva de vendas vai diminuir com o tempo e o Flamengo vai conseguir manter ao máximo esses jogadores formados no clube?
A ideia é sempre tentar manter. Mas sabemos que não conseguimos concorrer com o dinheiro que vem de fora. Se pagarem a multa, não temos como segurar. Mas até pela estrutura do clube, a tendência é cada vez ter mais jogadores de baixo e diminuir essa busca por jogadores de fora. A tendência é cada vez mais olhar para a base.
O assédio tem sido grande? O caso do Paquetá, por exemplo.
Sempre tem. O Paquetá tem se destacado muito, é um dos melhores jogadores do Brasil. Não chegou nada oficial. Sempre há especulação. A partir do momento que chegar algo oficial, vamos conversar com o empresário e com o atleta. Nossa ideia sempre é segurar. Mas se pagarem a multa não tem jeito. Mas a ideia é fazer um plano de carreira e fazer com que ele vire um ídolo aqui dentro. A princípio, só sai pela multa.
Já iniciou conversas para renovação do Paquetá?
A ideia, quando um atleta se destaca, é chamá-lo para estender o vínculo e fazer um reajuste salarial. E temos conversado. Queremos fazer um plano de carreira para o atleta.
Nota: Paquetá tem contrato até dezembro de 2020
Com tanto assédio, é com o fator emocional, com o vínculo com o clube, por ser torcedor, que vocês conseguem hoje segurar essa garotada mais um pouco?
Não é só o caso do Flamengo, mas de todo o futebol brasileiro. É feito um trabalho de mostrar a grandeza do clube para o atleta desde a base. E os garotos já vêm com esse sentimento de ser jogador profissional do Flamengo.
Para você conseguir segurar um atleta hoje ele tem que vir desde garoto com aquele DNA do Flamengo, com aquela vontade de jogar no Maracanã e ser ídolo do Flamengo.
Como estão lidando com o caso Guerrero? Ele teve o contrato reativado. Sendo eliminado, ele joga?
Isso está com o jurídico do Flamengo. Não posso te responder concretamente. Eles estão vendo o caso do efeito suspensivo, que foi feito para a Copa e se estende para o clube. O contrato foi reativado, ele estaria apto a jogar.
O presidente do Flamengo sempre se colocou como entusiasta do Guerrero. Questão jurídica à parte, o departamento de futebol ainda tenta uma renovação?
Guerrero é um nome bem quisto no mundo inteiro. É um dos melhores centroavantes que tem no mercado. Lógico que gostaríamos de contar com ele, mas vai depender muito dessa parte jurídica, desse imbróglio todo.
Guerrero retornando, com a suspensão terminando em janeiro, teria chance ainda do Flamengo negociar com ele?
Teria chance sim. Sentaríamos para conversar com ele para ver justamente o que pode ser feito. Um jogador que interessa não só ao Flamengo, como a qualquer clube.
Globo Esporte
