A Libertadores vem mostrando sinais de evolução nas últimas temporadas. Desde a mudança para o calendário anual, até o crescimento (ainda lento) das premiações e a reformulação nas vendas de direitos de televisão. A Conmebol tenta fugir das amarras de décadas sob o comando de cartolas defasados, mas se perde na cega tentativa de emular a Liga dos Campeões da Europa.
Nesta sexta-feira (23), a entidade máxima do futebol sul-americano anunciou que, a partir de 2019, a final da Libertadores será realizada em jogo único. Mais uma vez, copiando o formato que é utilizado desde que o torneio do Velho Continente tinha o nome de Taça dos Campeões Europeus.
A razão mais óbvia que aponta o erro da decisão da Conmebol e, certamente, é a primeira coisa que passa pela cabeça do torcedor, é simples: Como vou conseguir pagar a viagem até o local do jogo? Se os ingressos normalmente já são caros – no ano passado, o preço médio cobrado pelo Grêmio foi de R$ 127, contra uma média de R$ 55 na competição – imagine ter que pagar também pelo deslocamento e estadia.
Na Europa, o formato faz sentido. Além de já estar ligado à cultura da competição, o modelo tem adesão facilitada pela amplamente melhor situação financeira do continente. Segundo dados das Nações Unidas em 2016, o PIB per capita europeu é US$ 25.596, enquanto o sul-americano é de US$ 8.504.
A diferença é maior ainda se pensarmos nos preços de passagens e distâncias. Enquanto na Europa os torcedores podem se deslocar por diversos meios com facilidade – seja de carro/ônibus, trem ou avião – na América do Sul os adeptos ficam presos aos altos preços das passagens aéreas – ou precisam se submeter a longa viagens terrestres, por rodovias que geralmente são descuidadas.
A Europa é um continente que comporta 50 países em uma área de pouco mais de 10 milhões km². Enquanto isso, a América do Sul tem apenas doze países em uma região que chega a quase 18 milhões km². A conta não fecha.
Grande parte dos europeus usa a mesma moeda – o euro –, enquanto os sul-americanos ficam presos ao câmbio. Menos mal para os brasileiros, que têm a moeda mais forte do continente. Mas e o argentino, que precisa de seis pesos para comprar um real?
Além das questões geográficas e econômicas, nossa própria cultura futebolística é incompatível com a final em jogo único. Enquanto a decisão da Liga dos Campeões pode ser realizada em bons estádios até em países com pouca história no esporte – como o País de Gales, na última temporada –, a América do Sul ficaria presa às principais nações do continente se quisesse uma final em um palco com qualidade semelhante.
Ainda existe a questão da cultura da “invasão” países estrangeiros, muito forte por aqui. As torcidas de clubes sul-americanos têm prazer de mostrarem sua força em um estádio rival, mesmo que em menor número. O alto número de gremistas no Estádio Ciudad de Lanús, em 2017, mostra esse ponto.
Os “caldeirões” sul-americanos também ficarão mais frios. Qual será a graça de ver uma final em La Bombonera sem a torcida do Boca Juniors para fazer sua festa? Ou seja: os próprios clubes perdem ao não contarem mais com a força que vêm das arquibancadas quando jogam em casa.
E como fica o Mundial de Clubes? O torcedor brasileiro já precisa gastar boa parte de suas economias para assistir ao seu time in loco do outro lado do mundo. Mas essa viagem pode ficar em risco quando o fã já vai ter arcado com uma viagem cara para ver o título sul-americano. Provavelmente terá que ficar de fora de um dos eventos.
Não há dúvidas de que a Libertadores precisa, sim, se aproximar mais da Liga dos Campeões para aumentar seu potencial comercial e sua relevância mundial. Mas a competição ainda precisa carregar o “DNA” sul-americano, ao invês de tentar emular os europeus. Copiando a Champions, nunca será maior que ela. Criando sua própria identidade, quem sabe.
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