Claro está que, submetidos aos mesmos níveis de instabilidade no cargo e às trocas de elenco do frenético mercado brasileiro, os técnicos estrangeiros que se aventuraram por aqui tiveram as mesmas dificuldades vividas pelos treinadores nacionais. Certo é, também, que se os nossos clubes não os livraram da habitual intolerância, traço marcante do jogo por aqui, foram os estrangeiros que encerraram abruptamente a relação em pelo menos três episódios recentes. Juan Carlos Osório trocou o São Paulo pela seleção mexicana, Edgardo Bauza saiu do tricolor paulista para assumir a Argentina e, agora, Reinaldo Rueda interrompe o trabalho no Flamengo para treinar o Chile.
Antes de apontar o dedo para os forasteiros e dar início a uma nova onda xenófoba, útil mesmo para o futebol brasileiro é entender por que não cativamos os treinadores que chegam aqui. É possível que, em alguns episódios, os nossos clubes sejam vítimas. De fato, foram deixados na mão de forma intempestiva em várias situações. Mas culpá-los não nos fará avançar. Vale pensar se o ambiente é convidativo.
Há algo que, ao menos no curto prazo, os clubes brasileiros não podem resolver: é cultural. Nas Américas, seleções e projetos que podem terminar em Copa do Mundo parecem seduzir treinadores com muito mais facilidade do que na Europa. Tem a ver com o poderio econômico dos clubes, claro. Além de altos salários, os times de elite da Europa oferecem a chance de trabalhar com astros globais e de disputar o maior torneio do mundo, a Liga dos Campeões. Aqui, a realidade é outra. Sem falar numa forma idealizada como enxergamos o trabalho numa seleção. A Copa do Mundo é vista como um apogeu na carreira.
No entanto, é justo e útil levantar outras hipóteses. Não seria absurdo imaginar que, após experiências como as de Ricardo Gareca, Diego Aguirre, Jorge Fossatti, Miguel Ángel Portugal e outros, os estrangeiros cheguem ao país escaldados, certos de que o passaporte não lhes confere imunidade: à primeira sequência de insucessos pagarão com o emprego. Ou que as trocas constantes de jogadores tornem a formação de times um trabalho quase inviável. Ou que o calendário nacional, com seus quase 80 jogos, reduza a quantidade de treinos e a hipótese de que cada profissional deixe uma marca. Enquanto isso, o principal torneio do país, o Campeonato Brasileiro, é espremido em seis meses e tem estádios 60% vazios.
Não é só isso. Osório recebeu de dirigentes do São Paulo mensagens que o instruíam a “parar de inventar”. Em menos de cinco meses de Flamengo, Rueda comandou jogos com um nível assustador de violência nos arredores do Maracanã e do Engenhão. Não há qualquer indicação que foi este o fator decisivo. Mas que tal caminharmos para resolver tais questões, vender melhor nosso principal produto – o Campeonato Brasileiro -, organizar o calendário e fazer do país o palco de uma liga mais respeitável?
Rueda gozava de estabilidade no Flamengo, não parecia a caminho da demissão num clube que, desde o ano passado, tentava oferecer uma sobrevida a treinadores maior do que a média nacional. E que goza de estrutura física, hoje, de alto nível. Havia condições de trabalho. Mesmo assim, o colombiano mostrou um assustador desapego ao clube mais popular do país. Sinal de que, numa escala de prioridades, os técnicos que para cá imigraram ainda não põem nossos clubes no topo.
O Globo
